31.8.10

Gueixa


Fascina-me esse cenário de beleza inacessível
o suave roçagar das sedas raras,
enquanto deslizam em passinhos curtos,
espalhando vénias.

As cores ricas dos quimonos preciosos,
cingindo corpos esguios,
à luz ténue de lanternas de papel.

A arte de transformar coisas simples em cerimónias eternas,
os aromas exóticos de gengibre e umeboshi,
o som estridente e choroso do shamisen.

A delicadeza dos gestos que escondem mundos secretos de excessos e luxúrias, erguidos sobre a fragilidade de papel de arroz.

Atrai-me essa leveza,
esse estado suave de ser,
esse mundo zen de tatamis entrelaçados,
de beleza feita de camadas de pó-de-arroz,
a resvalar para o sonho.

É assim que quero ser:
leve, flutuante, como se tudo se passasse um palmo acima do chão.

(H. d´e.)

Almas


Percorrer as trilhas da alma
uma alma tateando outra alma
desvendando véus
descobrindo profundezas
penetrando nos escondidos
sem pressa...
com delicadeza...
Porque alma tem tessitura de cristal
deve ser tocada nas levezas
apalpada com amaciamentos...
... até que o corpo descubra cada uma das suas funções

As mãos deslizam sobre as curvas
como se tocando nuvens
a boca vai acordando e retirando gostos
provando os sabores
bebendo a seiva que jorra das nascentes
escorrendo em dons

Abraço que aperta sem sufocamentos
no beijo que cala a sede gritante
na escalada dos degraus celestiais

Corpos ajustam-se
almas matizam...
... e os amantes em assunção pisam eternidades

25.8.10

Mãos


As mãos escrevem-se tão próximo
de mim nos nomes que lhes dei,
que posso compreender o desejo
sem imagens ilusórias

As marés iniciam-se nos dedos,
embaralham o reflexo e o disfarce
de retornos e andanças nómadas
a serem lidas na nossa historia

O olhar não se restringe nos nossos
limites das redes visíveis das linhas
Os corpos deixam de ser ancoradouro
O oceano agita-se nos ossos
como um sismo no coração da terra

Percebe-se na palma da mão o frio,
a advertência clara do naufrágio
Mesmo quando os barcos passam
ao largo do nosso desalento

24.8.10

Palavras que a boca não diz


Venho fatigante do adeus que não devia ter sido.
Quero ouvir dos teus olhos as palavras que a boca não diz.
Na luz do teu olhar não há noite nem medo.
Deixa abrir-se o desejo róseo como se abre a ostra,
expondo a pérola madura.
Abandona-te na maré alta do sonho e permite que meus
dedos monges procurem a pureza dos teus calores
em cada refluxo de volúpia dos teus músculos.

Deita-te na concha de areia como fosse o meu corpo e vê
no voo das gaivotas folguedos infantis.
Deixa-as brincarem de vestir o teu corpo nu
com guirlandas e bordados tíbios de espumas.
Sente na pele os meus afagos quando a água te tocar
cobrindo-te de versos e beijos.

Acolhe-me no colo.
Entrega-te devagar e ouve o meu canto na voz do vento.
Cúmplice que empurra as algas dos desenganos para longe.
Ouve a alegria do meu sentir como trinados primaveris.
Permite que meus desejos nómados e perdidos encontrem
nas dunas do teu corpo mais que um repouso de viagem.

Tântrico


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(para ti, minha Fénix que me fazes renascer)

Infinita partida


Escrevo nesta manhã como quem pisa em sementes
de cicuta que ocupam o lugar das areias quentes
e o horizonte se perde no nevoeiro que envolve sonhos.

Chuto o rasto de esperma amarelado e espumante
do navio que zarpou levando-te no ventre de ferrugem,
mas como nunca acabas de partir ainda sinto a tua
presença na saliva da manhã de salsugem escondida.

Do embaçado da tua viagem para o longe que não sai
daqui onde estão os teus despojos por toda a parte,
ouço dois apitos longos anunciando o teu regresso.

Não partes e é um horror estares dentro de todos os
poemas que antes eram a minha morada do silêncio
e eu podia mover-me por trás do corpo das palavras.

Ah! esta tua infinita partida que vai durar toda a vida.