31.3.11

Barco Ancorado 31/03/2011


Adriana Calcanhotto esteve em Portugal para fazer promoção ao novo disco "O Micróbio do Samba". O site Cotonete foi ao encontro da compositora brasileira para uma conversa onde Calcanhotto falou, com a sua calma habitual, sobre a forma espontânea como este novo disco surgiu e sobre a sua capacidade para se reinventar de álbum para álbum. É uma entrevista que pode ser vista na Cotonete TV.

A relação da cantora com Portugal e a afirmação das mulheres no mundo da música também foram focadas na entrevista cedida à Cotonete TV.

Adriana Calcanhotto regressa ao nosso país em Maio para os concertos de apresentação do disco. Os espectáculos acontecem no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, nos dias 6 e 7 daquele mês. No dia 9, Calcanhotto sobe até à Casa da Música, no Porto.

Alinhamento
Adriana Calcanhotto – Canção de falsa tartaruga
Adriana Calcanhotto - Devolva-me
Marisa Monte – Amor I love you
Maria Bethânia – Onde estará o meu amor
Vanessa da Mata – A nossa canção
Adriana Calcanhotto – Fico assim sem você
Ney Matogrosso - Fascinação
Elis Regina - Romaria
Zélia Duncan – O meu lugar
Adriana Calcanhotto - Vambora

8.9.10

Isso basta-me!


Não sei mais o teu nome. Não sei os redemoinhos que te sopram, nem os teus segredos, os caminhos desfeitos. Não sei onde dormes, nem que nomes a tua boca já chamou. Não conheço as tuas rendições, mas confio no invisível fio das amarras quando dizes prometo. Lavo-me no leite dos teus olhos milenares como quem se lava de esperanças e sabe que o amanhã, ali, é apenas uma outra ilusão. Não sei onde será, mas saber da tua vinda basta-me.

Não sei das tuas fomes, nem se te deixas morrer nos braços de um homem, mas sei que te tomarei nos meus, um dia, como quem sacia todas as fomes ancestrais e embala o sono no balanço doce do vento do litoral, e isso basta-me. Não sei a tua duração, mas sei que os séculos da tua permanência serão feito incenso, linho, navegação de caravela em mar aberto, oração, sânscrito divino, e isso basta-me.

Não sei como te vestes, mas sei que a roupa que usas para mim é a tua nudez, de milagre do belo, de orações, de fêmea húmida, como um véu, um manto, no qual me escondes, e isso basta-me.

Não te toco, nem sei onde gostas que a mão te dome, mas sei que te abrirás, não como se te desses a outro homem, mas como se fosse o mover de tuas coxas e a salivação de teu corpo a passagem do Mediterrâneo, e o definitivo e único morrer do nosso destino... e isso basta-me!

31.8.10

Gueixa


Fascina-me esse cenário de beleza inacessível
o suave roçagar das sedas raras,
enquanto deslizam em passinhos curtos,
espalhando vénias.

As cores ricas dos quimonos preciosos,
cingindo corpos esguios,
à luz ténue de lanternas de papel.

A arte de transformar coisas simples em cerimónias eternas,
os aromas exóticos de gengibre e umeboshi,
o som estridente e choroso do shamisen.

A delicadeza dos gestos que escondem mundos secretos de excessos e luxúrias, erguidos sobre a fragilidade de papel de arroz.

Atrai-me essa leveza,
esse estado suave de ser,
esse mundo zen de tatamis entrelaçados,
de beleza feita de camadas de pó-de-arroz,
a resvalar para o sonho.

É assim que quero ser:
leve, flutuante, como se tudo se passasse um palmo acima do chão.

(H. d´e.)

Almas


Percorrer as trilhas da alma
uma alma tateando outra alma
desvendando véus
descobrindo profundezas
penetrando nos escondidos
sem pressa...
com delicadeza...
Porque alma tem tessitura de cristal
deve ser tocada nas levezas
apalpada com amaciamentos...
... até que o corpo descubra cada uma das suas funções

As mãos deslizam sobre as curvas
como se tocando nuvens
a boca vai acordando e retirando gostos
provando os sabores
bebendo a seiva que jorra das nascentes
escorrendo em dons

Abraço que aperta sem sufocamentos
no beijo que cala a sede gritante
na escalada dos degraus celestiais

Corpos ajustam-se
almas matizam...
... e os amantes em assunção pisam eternidades

25.8.10

Mãos


As mãos escrevem-se tão próximo
de mim nos nomes que lhes dei,
que posso compreender o desejo
sem imagens ilusórias

As marés iniciam-se nos dedos,
embaralham o reflexo e o disfarce
de retornos e andanças nómadas
a serem lidas na nossa historia

O olhar não se restringe nos nossos
limites das redes visíveis das linhas
Os corpos deixam de ser ancoradouro
O oceano agita-se nos ossos
como um sismo no coração da terra

Percebe-se na palma da mão o frio,
a advertência clara do naufrágio
Mesmo quando os barcos passam
ao largo do nosso desalento

24.8.10

Palavras que a boca não diz


Venho fatigante do adeus que não devia ter sido.
Quero ouvir dos teus olhos as palavras que a boca não diz.
Na luz do teu olhar não há noite nem medo.
Deixa abrir-se o desejo róseo como se abre a ostra,
expondo a pérola madura.
Abandona-te na maré alta do sonho e permite que meus
dedos monges procurem a pureza dos teus calores
em cada refluxo de volúpia dos teus músculos.

Deita-te na concha de areia como fosse o meu corpo e vê
no voo das gaivotas folguedos infantis.
Deixa-as brincarem de vestir o teu corpo nu
com guirlandas e bordados tíbios de espumas.
Sente na pele os meus afagos quando a água te tocar
cobrindo-te de versos e beijos.

Acolhe-me no colo.
Entrega-te devagar e ouve o meu canto na voz do vento.
Cúmplice que empurra as algas dos desenganos para longe.
Ouve a alegria do meu sentir como trinados primaveris.
Permite que meus desejos nómados e perdidos encontrem
nas dunas do teu corpo mais que um repouso de viagem.

Tântrico


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(para ti, minha Fénix que me fazes renascer)